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Sexta-feira, Setembro 29, 2006

ANTROPOFAGIA

Tal qual um produto na vitrine ou uma embalagem solta em alguma prateleira de supermercado somos o que aparentamos ser? Qual o sabor? Qual o preço? Quanto tempo levaremos do consumo à lixeira?

Perguntas e mais perguntas. E as mesmas respostas que explicam mas não justificam. Não mudam em nada os efeitos da exposição. Super exposição. Da imposição. Pisca-pisca de ilusões num letreiro de uma rua deserta. Peep-show da alma para algum estranho que não te conhece assistir. Tomografia da mente - demente - para algum conhecido sorrir. E abstrair.

E o dia que esse corpo novo apodrecer? Quem sabe o velho espírito acorde e uma pessoa de verdade apareça?

Distúrbio de auto-imagem numa freeway onde espelhos são as placas que te indicam o caminho errado. Falta combustível nesse automóvel, você não irá tão longe, não se preocupe. Pode também ser falta de auto-estima ou só um marcador quebrado. Quem se importa?

Não precisa MTV nem as paradas de sucesso. Sintonize na sua vida e irá assistir a um video-clipe: imagens sem nexo acompanhadas de alguma canção triste que toca sem parar. Insistente, latente, potente. Impotente, sem conseguir dormir e não poder mais sonhar. E principalmente, não te deixar esquecer.

Seus 15 minutos de fama já foram, Warhol já descansa em paz - ou tenta. Eternas reproduções de imagens repetidas em cores diferentes. As mesmas histórias em palcos itinerantes. Alguma comédia circense. Sociedade de consumo que consome, com fome e some.

Você quer fechar os olhos e simplesmente não pensar. REM (Rapid eyes movement) ou OREM (em português, pra quem é patriota e carola). Ato falho. Não é OREM e, sim, MRDO. Mais uma sigla, mais letras sem sentido. Algum surto enlouquecido. Fui redundante, eu sei mas nesse mundo repetir não é defeito.

Eu não sou criativa ao dizer que não existe mais o exclusivo. Existe escala industrial, produtos em série tipo exportação. O importante é colocar pra fora. Importação é bobagem. Quem se importa?

E o melhor de ser perecível é saber que daqui a 15 minutos (se tanto) ou alguns cliques depois ninguém mais vai se lembrar das sandices que aqui eu disse. Vai ser mais um surto no infinito. Mais uma lata sem rótulo, algum genérico com desconto. Apenas um texto sem código de barras.


:::Texto publicado no Kit Básico da Mulher Moderna, no dia 23 de maio de 2005.

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12:20 AM


Segunda-feira, Setembro 18, 2006

MULHERES NÃO CHORAM

Abro o caderno:

Comercial de sabonete, festa infantil, filme dramático, comédia romântica, criança pedindo um real pra comprar um pão... Só de falar dá um nó na garganta. Tem gente que chora de tristeza e gente que chora de alegria. Tem até quem chora por nada, só por um cisco que entrou no olho. Eu choro por tudo isso e um pouco mais. Dizem que chorar faz bem. Lava a alma, ajuda a desabafar e até a acalmar. Dizem também que meninos não choram...


Viro a página:

Olhe ao seu redor e observe as pessoas. Escute os sons e sinta o cheiro. Faça isso tudo ao mesmo tempo, incontáveis vezes por dia. Acelere a mente ao ponto de analisar e processar tudo, até mesmo enquanto dorme, e prepare-se para ter uma overdose de informações. Perceber o que tem, o que quer, o que perdeu...


Viro outra:

Tentei falar das mulheres que não choram. Ou ao menos, não deviam chorar. Depois, tentei mais um texto sobre a aceleração do pensamento e análise de informações. Aquele velho blá-blá-blá que volta e meia eu repito. Mas não consegui. Acabei indo parar naquele instante de felicidade que um dia eu vivi.

"Acho que eu me diverti" mas agora acabou. Fim de festa. Hora de recolher o lixo, dar tchau para os convidados e sentir tudo rodar e rodar e rodar e rodar...

Não venha me perguntar no dia seguinte qual foi esse instante porque eu não saberia responder. Só sei que ele existiu. Eu sinto o gosto amargo na boca e vejo as olheiras no meu rosto. Uma espécie de ressaca com amnésia alcoólica. Aquela dor de cabeça com um sorriso nos lábios e aquela incerteza de seus atos passados.

Sinto o vazio que esse instante deixou. E é essa ausência que me faz ter certeza da presença. Saber que tive porque perdi. Crer que fui porque não sou mais. Entender que foi e não vai voltar.

Vai ver eu errei. Não! Já aprendi que não existe certo ou errado. Existe falta e excesso. É isso. Vai ver eu só bebi demais, chorei demais, pensei demais.

E num piscar de olhos, pra tirar o tal cisco de lá, a felicidade veio e partiu e eu nem tive tempo de dizer: "Olá. Volta, logo!" Espero que ela não tenha dito: "Adeus. Até nunca mais!"

Por via das dúvidas, vou ficar atenta, de olhos bem abertos, sóbria, pra quando ela voltar eu reconhecê-la e abraçá-la, como alguém que encontra uma pessoa querida que não vê há muito tempo.

E é por esse motivo que eu não vou mais chorar. Não vou beber demais. E da próxima vez que eu ficar triste não vou mais ter dúvidas. Vou engolir. A dor e a saudade. Vou engolir o choro porque não sou mais uma menina. Sou uma mulher e mulheres não choram.

::: Coisa rídicula dizer que ninguém me entendeu. Quem chora, sabe. Reconhece. Vocês entenderam. "Mulheres não choram. Mulheres não choram. Mulheres não choram." Uma frase. Três vezes. Um mantra. Será que repetindo eu me convenço? Eu choro, choro muito e choro sempre. Choro a dor que já senti e a dor dos outros. Choro a dor sonhada e até a dor futura. Vai ver isso é coisa de pisciana e, se Freud não explica, a astrologia há de dar um jeito. "Ou não", como diria Caetano... Caetântrico.

::: O mais curioso na vida é quando você se esquece dela. Quando você simplesmente vive, sem pensar muito. Simplesmente.

Texto publicado no Kit Básico da Mulher Moderna, no dia 17 de maio de 2005.





:::ACRÉSCIMO EM 2006:
"Somente as mulheres comuns choram. As bonitas vão fazer compras." - Oscar Wilde

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12:43 PM


Terça-feira, Setembro 12, 2006

A VIAGEM



É chegada a hora de partir rumo a jornada do auto-conhecimento. Vejo tantos caminhos a escolher e tantas placas nessa estrada que fica difícil seguir em frente sem consultar um mapa.

Nele encontro uma observação bem lá no canto, provavelmente escrita por algum viajante experiente ou por mim mesma num momento de loucura: "Siga leve em sua jornada, jogue fora o supérfluo. Extraia o coração, se necessário. Razão, use a razão."

Agora sim, posso ligar o motor, engatar a marcha e seguir em frente. Pra onde vou? Tanto faz qual será o caminho escolhido, irei parar de qualquer maneira.

Mas quantas paradas serão necessárias para compreender que nada é mais passional do que ser cegamente racional?

Em uma delas, releio minhas histórias e encontro um retrato dessa mulher de mente acelerada, que acorda quando dorme e sonha enquanto vive. Se fecha ao abrir um sorriso e disfarça com alegria sua tristeza contida. Neurótica, melancólica, humana..."demasiadamente humana".

Menina em corpo de mulher. Ora mãe, ora filha. Tanta contradição em um enorme ponto de interrogação.

Olho pelo retrovisor e vejo uma vida curta com muitos quilômetros rodados. Na memória, um diário de bordo. Em suas páginas, cada curva da viagem, cada experiência. Na capa, aquela velha pergunta: "Quem sou eu?"

:::Post publicado no Kit Básico da Mulher Moderna, em 6 de abril de 2005


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11:09 PM


Segunda-feira, Setembro 11, 2006

BIG BROTHER DE POBRE

:::Sábado, 5 de setembro, 6h30, Air Bus da TAM, Aeroporto Tom Jobim
Sento na primeira fila do lado direito do avião. Do lado esquerdo, encostado na janela, abraçado com um travesseiro, o ator Bruno Gagliasso. De óculos escuros, caindo de sono, claro (ninguém merece pegar um vôo a essa hora), provavelmente cheio de olheira e louco pra tirar um cochilo. Ele pega logo no sono e só acorda quando o avião chega em SP. Ele desce do avião e eu continuo. Meu destino era Florianópolis. Mesmo destino de uma senhora catarinense, uns 60 anos, sentada atrás de mim.

Mal o rapaz sai do avião e ela começa a falar sozinha, bem alto:
- Que atorzinho mais mascarado né? Fica andando por aí de óculos escuros pra não ser reconhecido. Por isso que eu não suporto essa raça.

Fiquei com pena dele mas fiquei com mais pena da senhora equivocada.


:::Sexta-feira, 9 de setembro, varanda de um restaurante em Copacabana

Eu e meu acompanhante em uma mesa e três mulheres tomando cerveja, fumando e falando (alto) em outra mesa, no outro canto. Tinha um certo clima "Sex and the city" no ar. Era impossível não ouvir alguns trechos da conversa que a cada hora se tornava mais confusa.

Uma delas disse:
- Ajudei muito o Artur. Ele sempre me ligava pedindo dinheiro. Eu podia ter 50 reais na conta que eu ia lá e ajudava...

Ai pensei:
- Mais uma daquelas que ajudaou o ex e, classicamente depois de um tempo, vai desabafar com as amigas. Acontece muito...

Ai a outra diz:
- Artur era mesmo terrível. Pior eu que tinha que comprar todas as roupasd dele. Nem cueca ele sabia comprar. E quando comprava era tudo de péssima qualidade. Eu gostava de ver ele todo arrumadinho...

Aí pensei:
- Mais uma daquelas que vestiu o ex dos pés a cabeça e, obviamente depois de um tempo, vai desabafar com as amigas. Acontece muito...

Mas antes de eu concluir meu pensamento ela completa:
- Até pouco antes dele morrer era assim.

Ai eu pensei:
- Deixa eu ir embora antes da terceira mulher da mesa começar a contar mais algum podre do Artur.

Tudo bem que eu tenho o hábito de chamar ex de falecido assim como uma outra amiga, que aperfeiçoou o termo e carinhosamente fez o upgrade do falecido para "presuntão", mas o Artur, morto e enterrado, era praticamente um presuntão comunitãrio.

E se você é daqueles que acha que mulher é uma raça desunida, acabou de descobrir um dos poucos motivos, além de liquidação, que fazem as mulheres se juntarem animadamente. Pra todos os outros elas podem usar mastercard mas falar mal do ex não tem preço.

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12:40 AM


Sábado, Setembro 09, 2006

SER OU NÃO SER? EIS A QUESTÃO



Você não pode ser de alguém se não for primeiro de si mesma. Isso é o básico. Partindo daí acho complicado criar regras para relacionamentos e, principalmente, rotular as pessoas porque como diz uma amiga minha: "O mundo tá cheio de 'falsos fofos'.

Os falsos fofos são aqueles homens que são umas gracinhas e na primeira oportunidade revelam um lado cafajeste. Isso até rendeu uma brincadeira outro dia numa mesa de bar. Perguntamos a um rapaz amigo nosso:
- E você? É um falso fofo... um autêntico fofo...?

Antes dele pensar em responder, outro amigo veio e disse no lugar dele:
- Ele é um legítimo filho da puta.

Foi gargalhada geral.

Isso me lembra outra história. Um amigo, ex-rolo, chegou uma vez pra mim e me disse:

- Incrível como mulher só gosta de homem filho da puta e cafajeste!
- Meio relativo isso né? Às vezes um filho da puta pode ser fofo e ai vem uma surpresa boa.
- Não.... Ou o cara é filho da puta ou não é.
- Bem, que eu me lembre você é um fofo mas já deve ter sido filho da puta em algum momento. Eu mesma me lembro de um deles...
- É, você me convenceu.

Agora me diz:

O que é melhor? Um falso fofo ou um autêntico filho da puta? A ilusão ou a verdade?

::: Post publicado no Kit Básico da Mulher Moderna, em 4 de abril de 2005.


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10:00 PM


Sexta-feira, Setembro 08, 2006

FRASE DA SEMANA

"A questão não é o que fazem conosco, mas sim o que fazemos com o que fazem conosco."
Sartre

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8:50 PM


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